• Newton Cannito

Carta aberta à Brasil

Por Newton Cannito

Brasil, minha pátria mãe querida, sou obrigado a dizer que tenho uma relação ambígua com a Senhora. Por um lado admito que a Senhora (posso lhe chamar de você?) é fascinante. Tem uma beleza natural que todos notam e tem o carisma tropical irradiante, criado a cada dia por cada um de seus filhos, os brasileiros.

Sou apaixonado por meus irmãos, fazemos um belo time, e mandamos bem diante dos gringos. Mas quando vamos para casa a coisa se complica.   A impressão que tenho , cara Brasil, é que você é uma mãe meio omissa.  Sinto que você está totalmente dominada por uma pequena parte de seu ser, a tal de Elite. Esse pequeno grupo, aliás, vive falando mal de você pelas costas e   ainda manda em suas ações e domina os irmãos em nossa casa. 

Com o intuito de sustentar uns vícios ridículos e ter poder para compensar sua extrema baixa estima, essa tal de Elite tem escravizado todo o restante da Nação brasileira. E você, tal como mãe de um viciado em crack , acaba mimando esse filho doido e prejudicando todos os demais! Pronto falei!

Não quero lançar maldição, mas o fato é que suas belezas naturais já estão começando a ser destruídas e o seu povo, povão mesmo, naturalmente tão fiel ao seu estilo e sua liderança, começa a se rebelar e quer até mesmo, destruí-la. Cara Brasil, chegou a hora de mudar.

Bem, isso são os fatos. Mas mesmo assim, cara Brasil, eu sou obrigado a admitir que continuo fascinado pela Senhora! É nesse sentido que escrevo essa carta: para ajudar você a se redescobrir! Se perdoar, admitir seus erros para renascer, mostrando todo seu brilho! Acredito mesmo que chegou sua hora.

Você, minha cara Brasil, foi uma bebêsonhada antes de ser efetivamente inventada, anunciada por muitos profetas.Foi uma jovem Nação, concebida em uma festa de verão em uma praia paradisíaca, no encontro entre dois povos, um português e uma índia.

Eu sei que sua infância foi muito difícil. Seu pai português meteu o pé e ,além de não pagar pensão, exigia que Maíra , sua mãe indígena, desse uma pensão para ele. Olha que absurdo. Para piorar, ele enviava uns funcionários que mostravam uns papéis comprovando que a fazenda que sua mãe sempre morou era dele. Sua mãe, no entanto, não sabia ler e nem sabia o que era papel. Uma violência . Ele também insistia que a família de sua mamãe tinha que ser seus escravos. Um completo maluco. Um pai ausente e abusivo.

Eu sei como você, cara bebê Brasil, foi criada como filha de uma mãe solteira que usava da sabedoria tropical para manter sua família. Vocês duas viviam uma vida humilde, na oca da família de sua avó, em uma aldeia mítica que misturava todos os povos. Algumas guerras e doenças quase lhe mataram. Mas sua mãe, mesmo vivendo de forma humilde, mesmo sendo escravizada, conseguiu lhe educar sem perder a alegria.

Nisso sua mãe lembra a própria Maria. Hoje, sua mãe Maíra é reconhecida como Santa da Utopia Brasil e esse foi seu maior milagre: mesmo em tantas dificuldades, ela te ensinou a ser alegre. Eu entendo que você, cara Brasil, também sofreu muito” bullying”. Você foi, literalmente, uma Maíra-Ninguém.

Para os portugueses, você jamais seria uma portuguesa. E para as índias, você não era uma índia e, para piorar, era filha do Portugal, aquele pai perverso, responsável direto pelas doenças e mortes que a aldeia vivia naquele momento. Aquele povo um dia seria o seu povo, cara Brasil. Mas , em sua infância, eles lhe odiavam.

Foi assim que você, a BBB, a Bebê Brasil, cresceu bastante solitária. Você foi a primeira menina-mameluca, mistura de português com índio. Você não tinha como ter orgulho de sua identidade, pois a identidade acabara de ser criada. Era , literalmente, uma experiência nova nesse mundão de Deus: A patinha feia.

Deve ser por isso que você, cara Brasil, cresceu tão beata. Eu lembro como você, carente e doentinha, logo caiu nas graças da Igreja e foi uma daquelas curumins que gostavam da missa. É verdade que também gostava das magias que sua mãe aprendia com aquela bruxa portuguesa estranha, que morava ali perto. Mas também amava a missa, fez catequese, virou coroinha.

Outro fato curioso de sua infância, Bebê Brasil: sua mãe, na ausência de papai, teve vários namorados gringos. Eu sei que hoje ela é considerada santa, mas Santa da Utopia não costuma ser abstêmia. E naquela època a mamâe Maìra, tal como você hoje, pegou tudo que foi gringo. Sua mãe, nossa vovó indígena, abriu suas lindas costas para franceses, holandeses, piratas, ingleses, deixava chegar de tudo um pouco. Afinal, eram costas marítimas, cheias de imensas belezas naturais e gostosuras.

Você, Bebê Brasil, adorava ter tantos tios, cada um de um estilo, cada um com uma roupinha diferente, um idioma diferente, tudo diferente. Mas isso também lhe deixou um pouco confusa, um pouco sem identidade. Você, cara bebê Brasil, cresceu assim: filha de mâe solteira que vira e mexe namorava um gringo que alternava entre o divertido e o violento.

Órfão de pai desaparecido

Mas o fato, minha cara Brasil, é que seu sonho sempre foi conhecer seu pai, Portugal. Quanto mais seus primos indígenas falavam mal dele, mais você tinha curiosidade em conhecê-lo. Afinal ele era lembrado como uma verdadeira potência, um grande conquistador dos mares.

Até que veio a grande perda. Você lembra, cara Brasil? Você estava para completar oito anos, quando seu pai, ainda jovem, desapareceu!

Foi em 1578, na Batalha de Alcácer Quibir. Impetuoso e meio maluco, seu pai Portugal foi combater os mouros na África e sofreu uma mega derrota. Corajoso, lutou até o fim e desapareceu. Com ele, desapareceu o Rei Sebastião, que o povo identificava como a própria nação portuguesa.

O sumiço de seu pai foi um trauma imenso para sua infância. Você achava que ele era um cara foda e, ainda criança, descobriu que era um fracassado. Corajoso, audacioso, mas muito emotivo. Sua auto estima que já era baixa, diminuiu ainda mais.

Para piorar você, a menina-Brasil, foi entregue para tutela do tio Espanha . Agora era o tio que vinha cobrar a pensão. Na aula de história eles chamam esse momento de União Ibérica, quando Portugal foi anexado pela Espanha e, mais uma vez, quase perdeu sua identidade.

Para você, menina-Brasil, o pior é que o Rei Espanhol era um chato e queria impor sua educação conservadora. Chegou até a mandar uma professora furiosa chamada Inquisição. No entanto, a infância de você-Brasil já tinha sido livre, e aquela repressão do tio careta, apenas acentuou sua rebeldia juvenil.

É importante você , cara Brasil, lidar com essa perda de seu pai desaparecido.Eu sei que ele era ausente, mas foi traumático. Prova disso são os seus surtos periódicos de Sebastianismo doentio, aquela doença louca que faz você acreditar que seu pai desaparecido ainda vai voltar para salvá-la.

Esse desejo de pai reprimido, cara Brasil, tem lhe causado até alguns delírios, identificando seu pai em presidentes e lideranças espirituais bem porcaria, em cada canalha que quer dominá-la. Deve ser por isso, por carência desse pai sumido, que você continua mimando seus filhos da Elite, pois são eles que mais te lembram aquele pai portugues dominador.

Esse delírio tem minado suas forças, cara Brasil. Afinal, após encher seu coração de esperança que ele voltou, você sempre se desilude. Foi assim, gastando sua fé em qualquer canalha que aparece, que você acabou perdendo a esperança em si mesma. Chegou a hora de se libertar disso, cara Brasil. Aceite sua perda, entenda que seu pai não voltará e você estará apta a ser quem você nasceu para ser: a Pátria Mãe de um Império Pacifico e de eterna bem aventurança.

O Brasil nômade: a adolescência aventureira e violenta do jovem Brasil

Depois dessa infância atípica, nada mais natural do que você virasse uma adolescente aventureira. Na época, começaram a surgir outros jovens como você, pequena Brasil, os mamelucos. Eles eram fortes pois, tal qual seus primos índios, viviam para a guerra e não tinham medo da morte em batalha.

E, tal como seu pai português, eles eram estrategistas e sabiam usar armas de fogo. Aos poucos, eles começaram a se encontrar e a definir sua personalidade e logo viraram uma verdadeira gangue de rua, o terror daquelas terras.

Você, adolescente Brasil, que vivia sempre sozinha, sem identidade e sentia falta de seu pai desaparecido, acabou entrando para a gangue. Foi uma das únicas mulheres e conquistou muito respeito. Alguns até te deram aquele apelido: “Amazona, a Maíra Bonita”!.

O que veio a seguir você já sabe e eu sei que você evita se lembrar. Fique tranquila, eu não estou aqui para acusá-la, ao contrário, quero ajudá-la a entender seus erros. Um degredado esperto logo percebeu o potencial dessa gangue e contratou vocês para ir caçar índios. Ele conciliou a fome com a vontade de comer. Por um lado vocês não tinham emprego e, por outro, ainda tinham raiva daqueles índios que fizeram “bullying” com vocês durante toda a infância. Vocês, os mamelucos, não tinham compromisso com nada, não tinham identidade, eram livres.

Você, cara amiga Brasil, que até então era uma jovem quieta, traumatizada e cristã, virou uma maloqueira de primeira. Maloqueira no sentido original, de quem destrói as malocas.

Foi nessa época também que você passou a ser chamada de O Brasil. Não que você tenha virado trans, afinal isso nem existia com esse nome na época. Você apenas optou por viver seu lado masculino.

Nessa fase, você, meu amigo Brasil, se aventurou pelo mundo. Meteu o pé na estrada, foi fazer a vida, ganhar uma boa. Foi o período dos bandeirantes, das entradas, das bandeiras, das guerras internas e externas que foram formando a sua identidade como Nação!

Nesse caminho você, meu caro Brasil, conheceu melhor seu próprio interior e descobriu até mesmo onde estava o seu ouro. Infelizmente , ainda bobo como era, você deixava seu tutor ficar com a maior parte de tudo que você achava.

Foi também nessa época rebelde que você decidiu ir além: rompeu o tratado de Tordesilhas e expandiu em muito seu território. Você, meu caro Brasil, cresceu em poder e importância. Parabéns, foram grandes conquistas.

Mas , o fato que não dá para negar, meu caro amigo Brasil, é que nesse caminho de conquistas, você se transformou em um homem violento. É, Brasil, você não é um santo. Longe disso. Você não hesitou em escravizar seus tios e se aliar com os primos portugueses, que queriam roubar a família de sua mãe.

Brasil, meu caro, é importante você reconhecer que foi um adolescente muito violento. E pedir perdão por isso.

Eu posso até tentar entendê-lo, mas é importante assumir seu erro. Podemos também fazer um pouco de sua defesa, para ajudá-lo a se auto perdoar. Um de seus biógrafos, Darcy Ribeiro, lembra que você foi um Zé Ninguém, um intermediário entre as duas famílias: a indigena da mãe e a portuguesa do pai.

Além disso, cresceu em uma terra sem lei. A escravidao de indígenas oficialmente era proibida, mas o próprio Rei fazia vista grossa ao não cumprimento desta lei. Se algum poder estrangeiro perguntasse, Portugal já tinha uma resposta na ponta da língua: “É impossível controlar aquele mameluco chamado Brasil! “.

O fato ,no entanto, é que seu pai nem tentava controlá-lo. Na verdade, ele entregou para você, o filho bastardo, a tarefa de fazer o serviço sujo. Era um pacto de silêncio.

Portugal e depois o tio Espanha não te impediam de escravizar os indígenas, mas fingiam proibir. Na realidade, é que ver o pai falando uma coisa para a sociedade e fazendo outra em casa destrói a cabeça de qualquer criança.

Foi assim que você, meu caro Brasil, virou um cínico que não acredita na Lei e na Justiça. Foi com seu pai que você aprendeu a ser corrupto, a ignorar a lei que ele mesmo fazia e fingia cumprir.

Você, meu caro Brasil, foi o filho bastardo de um pai omisso que, enquanto passeava na Europa se fingindo de cristão, lhe incentivava a praticar crimes por baixo do pano. Isso destrói a cabeça de qualquer criança.

Chegou a hora de se libertar de seu pai e entender que esse vício de querer burlar a lei e se achar espertinho , é apenas um padrão mental imposto por seu pai fracassado e sacana.

E sei que , às vezes, você se deixou comover. Você sempre foi assim, ambíguo, um cara complexo, com muitos lados. Essa carta foca em seu lado público e familiar, não estamos contando outros lados de sua personalidade, suas festas, seus amores, suas músicas. Por isso, falamos pouco de seu lado emotivo.

Mas achei bonito quando você me contou de seu trauma maior: aquela expedição em que o Raposo ia capturar os índios nas Missões Jesuíticas. Foi ali que você presenciou um extermínio em massa e viu seus primos indígenas sendo mortos e escravizados sem dó.

Nesse dia, faço questão de lembrá-lo, você se arrependeu de tudo. Você, Brasil, deve lembrar como ao final daquele massacre, em meio a montes de corpos de seus primos índios, você cruzou com um antigo jesuíta, seu mentor na infância. Ao invés de matá-lo ou prendê-lo, ação que qualquer outro mameluco do Raposo faria, você caiu ao chão , se ajoelhou chorando e pedindo perdão.

Foi um gesto bonito. Você sempre foi assim, meu caro Brasil. Um cara confuso, que comete o crime e depois se arrepende.

Criticar você pelo seu passado é muito fácil, eu sei. Mas é necessário. No entanto, uma boa terapia também reconhece seus méritos. Essa fase, querido Brasil, foi sua “aventureira” que conquistou um imenso território e fez de você uma potência mundial. Nenhum primo seu da América do Sul fez nada parecido.

O tio espanhol tentou dominá-lo, mas acabou se dando mal. Você virou o jogo e aproveitou a União Ibérica para ocupar os territórios dele. E eu, mero cidadão , filho da minha Pátria Mãe Brasil, até hoje usufruo de suas conquistas.

O fato é que sua energia, nesses primeiros anos, foi importante para seu crescimento físico e seu poder como Nação

O louco é que nesse período você voltou a amar sua família portuguesa. Quando o Padre Vieira, esse grande mentor espiritual da nossa família, ajudou o povo Português a reconquistar sua autonomia como Nação, você comemorou aqui também.

Acho que você percebeu que aquele pai português era distante, folgado e desaparecido. Mas era melhor que esse tio espanhol chato, fanático e traidor.

No entanto, a relação de admiração e vassalagem que você ainda tinha com seu pai Portugal nunca mais foi a mesma. Você começou a amá-lo, mas parou de respeitá-lo. Quando Portugal deixou você por anos com o tutor espanhol, ele perdeu toda sua autoridade moral

. Foi ali que começaram as piadinhas de Português que existem até hoje. Seu pai dizia ter voltado mas você, Brasil, não acreditava mais no filho que ele deixou para ser Rei. E continuou sonhando com a volta de D. Sebastião. Meu Deus, como você demorou para resolver esse problema com o pai,hein? Já resolveu?

O Brasil escravocrata

Uma nova oportunidade aparece para você nessa época: o açúcar começava a ser uma economia importante. Foi assim que você-Brasil, depois daquele impulso aventureiro juvenil, decidiu investir em terras e agricultura.

Foi aqui que você voltou a cometer erros horríveis, quase indizíveis. Sim. eu conheço bem seus argumentos , suas desculpas. Entendo que você teve uma dificuldade, pois faltava mão de obra. Você tinha poucos filhos para um imenso território.

Além disso, você era o tipo de pessoa que topava entrar em uma expedição Bandeira e sair à caça de índios por quatro anos seguidos. Mas não era muito apegado a trabalhos repetitivos e agricultura. Nisso, era igual a seus primos índios, que nunca aceitavam o trabalho escravo e eram chamados de preguiçosos. Você era um nômade que decidiu virar sedentário.

Foi por essas desculpas esfarrapadas que você começou a fazer o caminho mais fácil e optou pela escravidão dos negros. Um vexame.

Brasil, sou obrigado a admitir que nessas horas, você me causa certa repulsa. Afinal, foi um crime contra a humanidade. Em sua defesa (mas existe defesa para isso?) poderiamos dizer que a escravidão era comum na época. Mas, por outro lado, você foi campeão em escravidão.

Foi o país que mais escravizou e um dos últimos a fazer a abolição. Eu sei que você tinha até apoio da Igreja católica que, apesar de condenar a escravidão indigena, permitia a escravidão dos negros. Eles simplesmente fingiam esquecer seus ideais de fraternidade universal e permitiram o genocídio de muitas nações africanas e o sofrimento de milhões de imigrantes forçados.

Outra relativização que Gilberto Freyre, outro biógrafo seu, disse em sua defesa é que você, nessa época, ficou meio dividido entre seu lado masculino e feminino. O lado Brasil-masculino sequestrava e matava escravos sem compaixão, mas seu lado Brasil- feminino tentava dar uma amenizada afetiva na situação daqueles escravos.

Em parte, por influência muçulmana (que seu pai aprendeu no período de setecentos anos que teve sua casa ocupada pelos árabes) você tinha uma outra relação com escravos, diferente da relação que os ingleses tinham nos EUA. É, pode até ser parte da verdade, mas o fato é que você os manteve escravizados e não existe nada que justique a escravidão.

Você é culpado e está até hoje tentando reparar seu erro. Como tem que ser.

Ser uma Nação escravocrata é ser uma Nação que rouba os filhos de outra família e obriga-os a trabalhar em sua casa, sem direitos trabalhistas, sem sequer direitos humanos.

O escravo era tratado como mercadoria, como uma “coisa”. Imagina o efeito disso em sua família? Seus próprios filhos cresceram convivendo com outros seres humanos que são tratados como coisa. Não é um ambiente saudável para educar nenhuma criança.

O curioso, no entanto, é que esse povo escravizado era tão sábio que soube encantar o seu algoz. Os negros eram tratados como bichos, mas convenceram a todos que eram humanos. Mesmo em meio ao imenso sofrimento da escravidão, os negros conseguiram praticar sua cultura e inventar novas culturas, sincretizando com índios e cristãos. E sempre mandaram uma mensagem de força e alegria.

Um grande exemplo de personagem que simboliza essa resistencia amorosa do povo negro é a Nega do Leite. A Nega do Leite era a escrava que era destacada para amamentar o filho do sinhozinho. Ela, obviamente, dava leite e amor.

E, enquanto oferecia seus seios negros para o filho de seusenhorio mamar, ela contava histórias para o bebê que contribuíram para o encontro cultural que estava se formando. Foram heroínas. Não é qualquer mulher que ensina, com amor, o filho de seu algoz.

Além disso, não podemos esquecer que, sexualmente falando, você-Brasil continuava sendo um sacana. Você sempre teve aquele apelo de amante latino, foi muito erotizado, muito ligado aos prazeres do corpo e nunca parou de mestiçar. Houve estupros, é verdade.

O seu lado feminino, mais ameno, fez como a Igreja que você era devoto: tapou os olhos para os crimes cometidos por seu lado masculino. Era o relativismo cínico funcionando mais uma vez.

Mas tenho que admitir que você não é apenas isso. Você, meu caro amigo Brasil, é também um cara muito romântico. Viveu muitos muitos amores e casamentos e, aos poucos, fez surgir um povo mestiço. Você-Brasil foi o primeiro mestiço da terra, mas seus filhos seguiram seu exemplo e, hoje em dia, a maioria dos brasileiros é mestiça.

Porém nada disso exclui seus crimes. A mancha da escravidão foi o vexame que por séculos você fingiu não ver. Você tinha um monte de filhos em sua casa, recém-chegados, e fingia que eles não eram humanos.

Mas agora chegou a hora de reconhecer que todos eles são seus filhos, são todos nossos parentes. Chegou a hora de redimir toda população excluída, os brasileiros que a nação Brasil ainda não soube acolher.

O pai vem morar na casa do filho

Em 1808, uma nova reviravolta na história e o Brasil é obrigado a receber o pai em casa. Foi uma virada surpreendente, digna das novelas brasileiras que, no futuro, seus filhos iriam viciar.

Agostinho da Silva disse uma vez que “Gostaria que o povo português se especializasse no imprevisível!”. Esse é um exemplo que mostra a imprevisibilidade criativa da Nação Portuguesa, de quem somos filhos com muita honra.

Vamos contextualizar para você lembrar melhor de sua vida. Nessa época, Brasil, você está na faixa de 300 anos de idade que, na espécie humana são uns 30. Você já tinha sua identidade bem formada, era um cara maduro, experiente, cansado de guerras. Tinha sido aventureiro, já tinha escravos, conhecia a maldade do mundo.

Nesse período, você era um cara independente que se criou sozinho.

No entanto, oficialmente, você ainda era tratado com uma colônia. Ou seja, você não tinha maioridade oficial, era “menor”. Você já tinha mais de 30 anos e ninguém lhe dava independência. Com nações infelizmente é assim, a independência tem que ser conquistada.

Já fazia um tempo, meu caro Brasil, que você sustentava financeiramente Portugal, aquele pai arrogante e confuso. E agora seu pai vem morar em sua própria casa e traz com ele a família toda.

Nos livros de história esse fato é citado como a vinda da Família real para o Brasil, em 1808. Espertinho como seu filho bastardo (o Brasil), o Rei de Portugal foi o único da Europa que conseguiu escapar de Napoleão.

Foi quando viu que o corso estava chegando a Lisboa, que o Portugal teve a ideia de fazer o que todos que não se adequam à civilização racional europeia fazem até hoje: “ ele se mudou para a praia”. Estressado pelas guerras ele decidiu passar uns anos sabáticos nos trópicos. O curioso é que para Portugal, ainda muito arrogante, seu filho bastado, o Brasil, era apenas o caseiro de sua casa na praia.

Eu aposto que estou até adivinhando seus pensamentos. E concordo. Eu sei que seu pai Portugal era um oportunista e só se mudou para sua residência pois estava fugindo. Foi tipo aquele pai ausente que só volta para o domicílio quando perde o emprego. Sim, ele fez por interesse próprio.

Mas, por outro lado, foi um feito inédito na história das colônias. Nunca um pai colonizador veio morar na casa da mãe colonizada. Não se tem notícia do rei inglês se mudando para a Índia, nem do rei espanhol se mudando para a Bolívia. Para um rei decidir se mudar para colônia foi preciso alguma dose de loucura, uma vontade insana de pegar uma praia, uma sensação que você conhece bem.

O fato é que a história de vida do Brasil da boa novela latina, cheia de momentos surpreendentes, com arranjos familiares inovadores, e muita ação em clima tropical.

Em comparação com seus primos da América Latina, você acabou tendo até mais proximidade com seu Pai. O Espanha era realmente o pai estuprador. Já Portugal oscilava e vivia uma crise eterna, variando entre a violência e a ternura. Para sua mãe Maíra, Portugal era tipo um malandro que conseguiu manter a amizade e está sempre tentando virar seu” P. A”, (pau amigo). Também era abusivo, sabemos, mas era em outro tom.

O fato é que a vinda do pai para sua casa também lhe trouxe vantagens, meu amigo Brasil. Há quem diga, que você nunca foi exatamente uma colônia, mas agora seu pai Portugal deixou isso claro : você virou Reino Unido a Portugal.

Tá, eu sei: Foi um presente de Grego. Que situação, meu amigo Brasil. Você era um jovem empreendedor no início de sua carreira e, de repente, foi obrigado a sustentar o pai e seus primos que se mudam em massa para sua casa e ainda ficam dizendo que você é só o caseiro da fazenda. E seu pai também conta prosa divulgando que agora somos um Reino Unido, uma família que divide as contas. O que ele não conta é que só divide as dívidas, nunca o lucro.

Portugal agiu como um pai falido que veio morar com o filho bastardo e anuncia que “ agora somos uma familia”. O que ele quer dizer com isso, na prática, é que vai morar contigo e mexer na sua geladeira. E que tudo que você conquistou a vida toda, agora também é dele. Além disso,você ainda tem que fingir que está agradecido pois, afinal de contas, seu pai finalmente voltou para casa.

Mas eu sei que também existia o afeto. Eu já falei muito desse lado rebelde e aventureiro que você teve quando jovem. Mas não podemos esquecer, meu amigo Brasil, que você sempre foi um cara afetivo e que priorizava as relações pessoais. Você sempre foi um bom político, um pai casamenteiro, que adorava resolver os conflitos com uma boa pinguinha ou uma festinha. “Se organizar todo mundo transa”, sempre foi uma de suas sabedorias preferidas. É por essas e outras que outro biógrafo seu – o Sérgio Buarque de Hollanda, disse que você, meu caro Brasil, era um Homem Cordial. Foi por isso que você aceitou esse pai folgado e foi negociando com ele devargazinho, para garantir seus próprios interesses.

Afinal, a mudança de seu pai para sua casa também trouxe coisas ótimas. A proximidade fez você convencê-lo a implantar seus sonhos mais antigos. O que você mais gostou foi a abertura dos portos. Até então eles eram monopólio dos portugueses. Mas depois da abertura você podia conversar diretamente com o mundo todo. Tal como uma debutante num baile de 15 anos você, a Brasil, foi finalmente apresentada à sociedade mundial nesse período. Agora a Brasil já podia falar em nome da família e podia arrumar bons namoros.

Tinha também a cultura. Você se deixou impressionar pelas firulas da corte, por aquele espetáculo “kitsch” que a Europa trazia consigo. Lembra dos castrati, aqueles eunucos italianos que vieram cantar na ópera? Foi só uma das novidades que vieram com a corte. Que loucura, aquelas óperas malucas como o “Triunfo do Brasil”. Você amava tudo isso, né Brasil? Afinal, era também uma estética carnavalesca, parecida com as festas indígenas e aqueles ritos sincréticos que você ia com sua mãe.

E, para terminar, você também gostou daquele meio irmão português que, tal como você, também era aventureiro e galanteador. Seu nome: D. Pedro I.

O santo de vocês bateu de cara e logo, o filho bastardo (Brasil) e o filho legítimo (D. Pedro),viraram os melhores amigos.

E foi assim, nesse enredo bem familiar e novelesco, que aconteceu a independência do Brasil, uma das coisas mais inusitadas da história política universal. Outro enredo rocambolesco, totalmente amalucado.

Independência na versão tropical

Imagina só: o Brasil finalmente proclama sua independência, “Independência ou Morte”, diz o mito. Mas quem grita isso, é o próprio herdeiro do trono português. Que foi nosso primeiro Imperador.

Sei que parece confuso. Um pensamento mais cartesiano vai até mesmo negar a lógica de fazer a independência para coroar imperador o próprio herdeiro do trono do país que você acabou de fazer a independência. É uma situação inédita na história das independências e bastante paradoxal. Por isso mesmo, foi perfeita para o Brasil, nossa cara. Foi mais um exemplo de Sabedoria Tropical, a sabedoria do paradoxo. A ideia super colou. Foi o que hoje chamamos de uma inovadora invenção institucional, ou um mega acórdão pacificador.

E foi assim que o herdeiro do trono português, meio- irmão do Brasil, disse que fica! D. Pedro pediu a independência do pai, tal como um filho que larga os negócios da família e se muda para curtir a vida no Rio de Janeiro. Ele decidiu vir morar com o meio- irmão Brasil na casa de praia, que agora era deles. “Independência ou morte” foi o grito de um filho cansado do pai decadente, que afirma que precisa fazer um novo caminho. Mas foi um rompimento conciliatório.,

Ao contrário de outras independências, o Brasil ficou independente mas não “matou o pai”. Ele não negou a paternidade portuguesa, continuou aceitando que é parte dessa mesma família. Isso tem vantagens e desvantagens, como todo psiquiatra pode analisar. Trata-se de você, caro Brasil, reconhecer sua história e potencializar seus talentos.

O Brasil na idade da razão

Os próximos 200 anos também foram muito corridos. Com o mundo já globalizado você, meu Brasil Brasileiro, teve que entrar no jogo geopolítico do mundo e se adaptar à revolução industrial e à modernidade. Você, que era um cara super rural, teve certa dificuldade em se adaptar a tanta modernidade.

No Século XIX você tinha virado um herdeiro de terras, um ser acomodado, um sinhozinho que acreditava ter relações cordiais com seus escravos. Isso na sua versão final, na opção que você colocaria de imagem no seu instagram, se existisse instagram na época. No seu dia a dia mesmo você era bem mais descuidado e virara o caipira, no pior sentido da palavra.

Sabe aquele jovem Brasil que no século XVI era sinônimo de aventureiro que andava pelos sertões inexplorados? Esquece isso. No século XIX você era apenas um caipira amorfo, acomodado no “bem viver” tropical que, pela precariedade de saúde e segurança , era um “bem viver” bem ruizinho.

Você podia até ter alguma segurança, mas era uma Nação estagnada. É como se aquela sabedoria criada no encontro do português com o índio chegasse ao seu limite. O Brasil parou pela preguiça que criou a escravidão, .Enquanto os vizinhos americanos se desenvolveram rápido, nós ficamos um tempo curtindo o marasmo tropical do sinhozinho escravocrata.

Além disso e para piorar muito você continuava negando sua parte negra, fingindo que o povo negro não era parte de nossa nação. Eles já eram da família, já tinham miscigenado, já estavam aculturados, já haviam criado culinária, músicas, religiões e lutas que faziam parte de sua identidade. Mas você, Brasil, ainda negava. Tinha vergonha de sua real identidade. No fundo sua autoestima continuava baixíssima. Você fingia ser um europeu nos trópicos, você era o Brasil, mas tinha vergonha de ser Brasileiro. E, para negar a si mesmo, mantinha milhões de pessoas aprisionadas em sua casa, sem reconhecê-las como filhas. Pessoas aprisionadas em seu território que você não reconhecia como cidadãos. Na verdade, meu caro Brasil você estava pior que hoje. Hoje você não sabe quem você é mas, naquela época, sabia e queria negar. E foi assim que estagnou. Apenas com a abolição sua identidade começou a ser reconhecida e você ainda esta nesse processo de reconhecer o negro como parte de sua identidade.

Enquanto, você-Brasil vivia essa crise de identidade, os primos da América do Norte criaram um novo império transcontinental. Ficaram anos dizendo que eram melhores que você. E realmente faziam muitos filmes que provavam isso. O fato é que os EUA curtiram pacas a vida nesses anos.

Eles fizeram o sonho americano. Já você, Brasil, invejoso e sem autoestima, está até hoje tentando copiar o primo americano. Até suas lutas você tem copiado, inclusive a pauta de lutas. É, no entanto, uma cópia sem sucesso, destinada ao fracasso. Afinal, você não é igual a ele.

Mas eu sei que não foi fácil, meu caro amigo e pai Brasil. Aquele primo protestante tinha a ética adequada ao espírito do capitalismo, a tendência econômica que hoje está em crise mas, na época, estava em seu auge. O primo Americano sabia racionalizar melhor, planejar o desenvolvimento. Dentro daquelas regras do jogo econômico dominante na época, os EUA ganharam do Brasil, de lavada. E ajudaram a construir muito do que temos hoje no mundo. Somos gratos. Temos que entender que na construção da civilização humana cada nação, em determinada época, teve sua função..

Hoje o modelo que fundou a utopia americana decaiu para o mais puro materialismo sem sentido, que só tem gerado infelicidade e miséria. Mas, no passado, o sonho americano ajudou a construir também a parte boa da civilização que temos hoje.

Mas agora a bola não está com os EUA. Chegou sua hora , meu amigo Brasil. Chegou a hora de você cumprir sua missão.. Mas para isso, tal como todo herói, você tem que reconhecer sua identidade, seu maior talento, sua imprevisibilidade criativa, típica da ética tropical.

Diagnóstico:

Brasil, meu caro, você está muito confuso. Sua mente está dividida num conflito eterno, uma imensa polarização. Você tem dúvidas básicas sobre seu dia a dia que lhe paralisam. Você não chega a ser negacionista, está mais para um isentão eterno. Você apenas ouve de tudo e fica mais confuso. Na verdade, meu amigo Brasil, você está à beira da esquizofrenia e isso pode levá-lo a viver uma guerra civil consigo mesmo.

Você também tem sérios problemas de autoestima. É ridículo, já que é lindo, simpático e divertido. Essa baixa estima deve ter nascido da imensa rejeição paterna que você trouxe como memória de sua mãe verdadeira.

A solução para isso, meu caro Brasil, passa por amar a si mesmo. Você pode conseguir isso lendo seus principais biógrafos (chamados de Intérpretes do Brasil), de Gilberto Freyre a Oswald de Andrade. Lendo esses autores seu amor-próprio vai melhorar. Você também pode ouvir a música que seus filhos fizeram em sua homenagem. O fato, meu caro Brasil, é que sua auto estima está tão baixa, que você deve ouvir a voz dos artistas que lhe amam para recuperar sua potência.

Você também tem sérios problemas éticos, tem até certo orgulho de não cumprir os contratos, ser “espertinho”. Isso, meu caro Brasil , é bobagem. Seu pai lhe ensinou assim, mas é porque ele mandava você fazer isso aqui, não lá. O português ensinava você a ser corrupto para roubar sua casa para ele. E você, sonhando em um dia ser europeu, aceitava. Mas para você, isso é péssimo. Afinal, você não é um português roubando outra nação. Você está roubando de sua própria casa, a casa de seus irmãos! Você, meu caro Brasil, tem que aceitar que é brasileiro.

Além disso, você nunca conseguiu conciliar direito seu cérebro com seu corpo. Depois daquela educação abusiva que seu pai lhe impôs, você tem dificuldade em harmonizar o que você fala com suas ações. E isso é grave. Gera desconfiança e paralisa suas atividades.. Você precisa resolver isso.

Sua cura está em seu corpo. Seu corpo se expressa bem, mas seu cérebro ainda nega isso. E fica nessa dicotomia eterna. Chegou a hora , caro Brasil , de você parar de ser maluco, harmonizar os dois lados do cérebro e botar sua mente e seu corpo para trabalhar juntos.

Na verdade, você tem que deixar sua mente aprender com seu corpo. E no corpo que sua identidade (a identidade brasileira) se manifesta de forma mais criativa. Se você, meu caro Brasil, quiser realmente se auto- conhecer anote a dica: deixe sua mente racional correr atrás do corpo. Ela é que tem que inventar palavras para expressar a imensa sabedoria tropical que voce e a grande maioria de seus filhos expressa na matéria, nas danças, nos esportes, na ginga do cotidiano, no sexo.

O século da contradição e polarização

Para você, meu caro Brasil, o século XX foi a contradição em pessoa Lembro que você, cansado da vida rural, decidiu se mudar para as cidades. E virou artista.

Nas artes e na cultura você começou a irradiar a sabedoria primitiva. Os modernistas trouxeram o poder dos povos indígenas para reinventar sua identidade. O samba e os tropicalistas trouxeram o saber dos terreiros para a grande massa. O saber popular que era restrito a festas fechadas irradiava pela mídia e pela primeira vez uma identidade nacional não foi criada em escrivaninhas de escritores. Foi criada em conjunto e através da observação do que o povo já faz.

Como que para provar essa tese foi também nessa época que você, meu Brasil brasiliero, mostrou ao mundo o Carnaval, o maior espetáculo da Terra, a primeira grande manifestação do poder da indústria criativa brasileira.

Você também se deu bem nos esportes. Eu sei que você sabe tudo isso, é sua história. Mas está tão deprimido que parece ter esquecido. Importante não esquecer nada, nem o ruim, nem o bom. E a parte boa é fundamental lembrar. Foi você – o caro amigo Brasil – quem trouxe a ginga para o futebol e, com ela, a alegria para o esporte. Nas copas do mundo você, Brasil, mudou a mente de todos pois provou que é possível ganhar se divertindo. Em paralelo, você também virou “influencer” e mostrou sua vida ao mundo como um verdadeiro paraíso tropical.

Por outro lado, você Brasil, também decidiu trabalhar na indústria. Eu sei que não foi fácil, um cara que até então todo mundo pensava que era pré-lógico, dialogar com a era industrial.

Mas, por incrível que pareça o fato, meu amigo Brasil, é que você brilhou. O bom de ser uma Nação tão grande e complexa é que se um pedaço seu (que costumam chamar de Estado) está estagnado, o outro pode entrar em campo e ajudar na hora certa. Você, Brasil, é como um time. Da Amazônia aos pampas gaúchos, o seu time tem um elenco de jogadores com talentos diferenciados que podem ser acionados de acordo com a partida.

Nessa época, há 100 anos atrás, não sei se você se lembra, estava paralisado pelo elitismo da política do Café com Leite, que alternava o poder entre mineiros e paulistas. Aquilo chegava ao seu limite e , de repente, você começou a perceber que era maior que isso.

Querendo mudar de vida decidiu ouvir outros pedaços de seu corpo e foi dos Pampas Gaúchos, onde surgiu Getúlio Vargas, a liderança que conseguiu liderar o povo brasileiro nos rumos da industrialização. Em poucos anos provou que não é apenas um cara que tem aquele natural charme tropical da ginga e da festa. Você é também um grande empreendedor industrial.

O seu desenvolvimento, meu caro Brasil, contou com o poder de trabalho de vários povos, que fugiram de suas casas (países) e lhe adotaram como mãe. A racionalidade germânica, já presente na Imperatriz Leopoldina, continuou presente no Sul do país e, depois, se espalhou para todo o Centro Oeste, ajudando a organizar o agronegócio. A sabedoria latina dos italianos criou a indústria no sudeste, recuperando o poder vanguardista natural dessa região de fronteira (O Sudeste está entre o sul e o norte) .Com os italianos veio também o poder transgressor dos anarquistas, que super se harmonizou com a jocosidade indigena e ensinou o povo brasileiro a lutar com humor (tal como o Garrincha jogava se divertindo) contra as eventuais tendências fascistas.

Já nos anos 70, os nordestinos (um povo super miscigenado) começaram a fugir da seca e da precariedade da vida no Sertão. Eles migraram para o Sudeste e oferecem a fundamental mão de obra para o desenvolvimento da nação. Aquela profecia de Cunha: “o Sertanejo é antes de tudo um forte”, se efetivava. Foi um desses sertanejos que virou presidente da República e começou a tirar o Brasil do mapa da fome.

Nos anos 80 o mundo começou a mudar novamente, com a crise no Modelo Industrial. Por dois motivos: a questão da inclusão começa a ser fundamental, como deve ser. E o modelo industrial-fabril já começa a ser superado por novos paradigmas, que podemos chamar de Indústrias Criativas.

Vamos primeiro falar da inclusão. Você Brasil, finalmente, aboliu a escravidão, libertou os escravos, mas os jogou à miséria e à precariedade. Ou seja, você reconheceu que eles são livres, mas continuou negando que são seus filhos. Já miscigenados e espalhados por vários grupos, ainda hoje, a maioria da população brasileira vive com risco diário de passar fome e em trabalhos precarizados. Ou seja, você, minha cara Brasil continua negando cidadania a seus filhos. É horrível a comparação, mas tem hora, minha cara Brasil, que você me lembra a deputada Flor de Liz, cheio de filhos adotivos que tinham direitos diferentes em sua própria casa. Ela, ao que parece, é uma sociópata. Espero que você não chegue a isso.

A nova república que durou de 1988 até a eleição de Bolsonaro pode ser resumida em dois fatos. Por um lado, a crise do modelo industrial, causada por tendências internacionais mas principalmente por políticas econômicas neoliberais que destruíram as indústrias para enriquecer os rentistas.

Quem ressurge aqui é o Brasil com preguiça de trabalhar, tentando dar uma de malandro e reescravizar as pessoas. E conseguiu. Esses seus filhos privilegiados, a elite, mais uma vez conseguiram. Agora boa parte do povo brasileiro está escravizado para pagar divida para meia dúzia de biliardários.

Tudo começou com a ideia da escravidão por dívidas. Ela começou pequena, uma !start up! escravagista em pleno século XIX. Era o chamado regime dasparcerias, feito para os imigrantes europeus que chegavam a fazenda para substituir os escravos negros no campo, mas agora eram escravos por dividas . Eles se endividavam para pagar a viagem de navio e para comprar comida na venda do próprio dono da fazenda. E, pela dívida, ficamos presos a vida toda naquele trabalho precário.

Esse sistema, que sempre foi muito cruel, foi imensamente sofisticado na era do capitalismo financeiro. Agora uma pessoa se endivida por cartão de crédito e paga imposto e taxas para a Coroa em cada transferência. A Igreja, que durante séculos condenou a usura (empréstimo de dinheiro a juros), nunca mais falou do assunto. Tal como ela ficou calada por séculos sem condenar a escravidao de negros, agora ela hesita em condenar a escravidão pordívidas. (com muitas honrosas exceções como a Teologia da Libertação e o próprio Papa Francisco, que nos dão esperança no poder civilizador da igreja católica). Foi um grande golpe em nosso povo. É como se a elite , antiga dona de terras, os antigos donatários das capitanias hereditárias, recuperassem de repente, do dia para a noite, todas as propriedades e o poder que eles tinham dividido minimamente em 5 séculos de nação. Esse é o poder da globalização. Com algumas manobras financeiras abstratas, feitas por leais servidores no Ministério da Economia, uma pequena elite saqueou a Pátria. Na prática o Brasil de hoje, tal como em nosso inicio, esta com a Nação dividida entre poucos proprietários, deixando a maior parte da população lutando pela chance de arrumar uma vaga de escravo, enquanto os outros perambulam à própria sorte.

Uma característica de sua personalidade, minha cara Brasil, é que a senhora é uma pessoa dividida. E a principal divisão está na concentração de renda. Existe um verdadeiro “apartheid” econômico que se manifesta em “apartheid” de visões de mundo. A pequena elite , geralmente estrangeira ou conectada a valores estrangeiros, fica de um lado, e uma imensa massa de excluídos fica do outro.

A senhora jura que circula entre ambos, fazendo o meio campo. Você quase chegou a ser elite, mas nunca teve bens reais para ser realmente independente financeiramente. A elite mesmo, continua sendo estrangeira ou conectada a valores estrangeiros.

Essa é a situação de sua família, minha cara Mãe Brasil. Sua casa está uma bagunça e seus filhos estão à beira de matar uns aos outros. Tudo porque você foi omissa e deixou que seus filhos viciados (a elite rentista e colonizada), dominasse todos seus irmãos.

Chegou a hora de você , mamãe Brasil, botar ordem na casa, organizar essa família e colocar todos para trabalharem juntos.

Você, minha amiga Brasil, ainda tem muita energia criativa e está vivendo de bicos. Mas como é indisciplinada, gasta toda sua vitalidade com seus pequenos vícios, com sua vontade mais primitiva de poder e/ou sexo (a elite). Obviamente esse é o caminho para a loucura. Ao negar cidadania a grandes partes de si mesmo, você, minha cara Brasil, já está doente, viciada e decadente.

Para piorar, a senhora entrou na crise da meia idade. Eu sei, você trabalhou muito, fez coisas ótimas, outras mais violentas. Mas também amou e se divertiu.

E agora, você chegou a seus 50 anos em uma mega crise de identidade. É como se a Brasil percebesse que a vida inteira ela foi vários, já fez inúmeros personagens. Mas agora precisa ajustar todos eles para achar um rumo para sua vida. Sua situação, minha cara Brasil, é nitidamente um ponto de virada. Ou você vai ou racha.

A sua vantagem é que o mundo anterior está acabando e um novo mundo está nascendo. Você, cara Brasil, está com cinquenta anos e ainda não tem um patrimônio acumulado e muitos de seus filhos não tem sequer casa própria.

Mas é um momento de oportunidades e você, em todo seu caminho confuso e conflituoso, foi preparada para esse exato momento. Se a Brasil conseguir se posicionar nesse novo mundo das indústrias criativas irá cumprir seu destino histórico de irradiar uma civilização tropical que ajudará a humanidade. Porém, se não conseguir, irá fracassar redondamente, cairá em total dissolução social. Eu admito que tenho medo até de encontrar você, mamãe querida, na cracolândia. Acho ambas as possibilidades muito possíveis. Possibilidades intermediárias são bem menos prováveis. Ao que parece a hora é agora e a Brasil ou vai ou racha. E para ir tem que encontrar seu rumo, saber quem você realmente é.

Em sua mente confusa ,eu sei que você pensa que são vários. Você ainda se sente dividido entre portugueses e índios, sem atentar que já é um mameluco; entre brancos e negros, sem perceber que já é mulata. Na filosofia, a Brasil se divide entre racionalista e o mágico, sem perceber que ambos os lados já estão misturando racionalidade com magia. Ela está dividida entre sudeste e nordeste, quando o que precisamos é justamente conciliar as duas sabedorias, organizando a criatividade natural do Brasileiro para criar uma verdadeira indústria criativa.

A Brasil, obviamente, é cada um de nós. Cada um dos brasileiros vivem suas próprias dicotomias, seus conflitos, suas polaridades. Afinal, todos escolheram nascer nessa nação que é o maior laboratório de criação existencial do planeta, no momento.

Aqui está acontecendo o sincretismo e a diversidade, e viver isso não é fácil. Desesperados por achar uma identidade nós começamos, nesse fim de era , a nos apegar a identidades rígidas. Justo nós, que sempre fomos misturados, sincréticos, miscigenados. Mas foi só um impulso momentâneo para resistir a esse momento. A brasileira média continua preferindo ser uma metamorfose ambulante.

Mas nós temos como resolver essa crise. Não é difícil. Você não precisa nem resolver suas questões. É só aceitarmos que vivemos em crise e que vivemos no paradoxo. Que a identidade do brasileiro é ser uma metamorfose ambulante, uma identidade que muda. Eu prefiro ter essa constante certeza mutante. Esse é o Brasil, a Brasil.

Mas isso só será possível no amor. Não se resolve na razão, se resolve na emoção. Para isso temos que ter passar por uma nova etapa, ter uma nova cura. O Brasil sempre foi obcecado pelo pai. Sempre teve uma quedinha por homens de farda, não? E por isso, houve uma época em que a senhora se mudou para cidades no meio do Sertão, apenas para esperar D. Sebastião (Canudos). Depois o elegeu o Pai dos Pobres, depois o Mito. Sempre em busca do pai. Agora , minha cara Brasil, já deu. Na prática, você já resolveu sua questão com o pai até por desistência. Você perdeu por “W.O”. Seu pai não tem jeito mesmo, esquece ele.

O que você ainda nem deu bola é para sua relação com sua mãe. E com o feminino. Sei que você nasceu mulher mas passou boa parte da vida lutando para ser homem. Eu entendo, sua vida foi difícil. Mas agora é a Brasil, seu lado feminino, que volta a ser necessário. É na energia feminina do amor e do acolhimento que você vai assumir seu papel e cuidar de todos os seus filhos. Oferecendo a eles condições materiais para criarem a si mesmos felizes, como estão destinados a fazer.

A obrigação da mamãe Brasil é formar verdadeiros ninhos de amor para que eles criem novas histórias de vida e felicidade tropical, que serão partes da grande história de Felicidade tropical que iremos irradiar para o mundo.

No fundo é simples: basta ser feliz que o resto se resolverá! E se tem uma coisa que brasileiro é bom, é pagar de louco e fazer uma festa! E dançar no cataclisma! Éesse poder que o mundo necessita..

Só precisamos cuidar de nossos filhos sem apego, deixá-los livres para criar e ser quem são.

O EUA, nosso primo que nasceu na mesma época, brilhou para o mundo em sua juventude, foi uma Nação “ jovem pródiga” que irradiou ao mundo o poder de realizar.

A Brasil, no entanto, irá brilhar na Idade Madura, pois seu destino é irradiar o poder de Amar. Por isso, ela teve que fazer um caminho mais tortuoso, cheio das burrices e fracassos que, se bem assimilados, constroem a sabedoria.

A Brasil já foi a bebêcriada por uma mãe índigena, já foi um jovem aventureiro bandeirante, um escravocrata financeiro que foi amamentado por uma “mãe de leite” negra.

O Brasil já foi um malandro que se vira, o esperto que não briga, o mineiro que faz política. Ok. Foi tudo parte, não precisa nem se culpar mais. Graças a Deus, você é essa metamorfose ambulante. Pois agora é a hora do Brasil ser mãe!

A Brasil tem que ser a Pátria Mãe Gentil! Para que seus filhos brilhem!

Assuma seu papel que vai dar tudo certo!

#amazônia #Brasil #criativa #polarização

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