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  • Newton Cannito

Abraçando uma homicida: a crise do modelo dramático progressista

A recente polemica em torno da reportagem do transexual no presídio, realizada por Dráuzio Varela para a TV Globo, mostra como o tradicional discurso progressista não é mais algo que consegue unir o Brasil! Vamos aqui, sugerir como e possível catalisar essa união e criar narrativas e historias que expandam os valores humanos e gerem real pacificação!


Para quem não sabe, vamos dar um resumo dos fatos. Dráuzio fez uma reportagem sobre um transexual no presidio, mostrando sua solidão, que ele não recebia visitas e tal. A matéria repercutiu muito. Parte da ala progressista começou ai imaginar o Dráuzio para candidato a presidente pois acreditavam que o humanismo do doutor e algo que pode unir o Brasil.


Foi o que bastou para o lado contrário pesquisar mais sobre a transexual e descobrir que ela foi uma assassina cruel de uma criança de nove anos. Já acharam a mãe da vitima e ouviram o ponto de vista dela. A partir dai as criticas na rede caíram matando com argumentos já conhecidos: "esse pessoal dos direitos humanos só defende bandido", é a mais comum. Muitos também disseram que o Dr. Dráuzio é um medico de abastados que faz caridade para ganhar mídia e por aí vai.


A resposta de Dráuzio foi perfeita: segui na reportagem os princípios de minha ética médica, aonde não pergunto ao paciente o crime que ele cometeu, justamente para não ter preconceito com ele e poder bem atende-lo.


Pessoalmente eu tenho absoluta certeza da boa fé do Doutor Dráuzio, que faz um trabalho fundamental em presídios ha mais de 30 anos. Acusá-lo pessoalmente é apenas rancor ou falta de empatia.


Mas acho que já chegou a hora dos progressistas e defensores dos direitos humanos (como eu) escutarem melhor as críticas! E atentar que o que vivemos é uma crise do modelo dramático do melodrama progressista.


O que é o melodrama progressista? É uma narrativa que separa vilões e vitimas de forma muito clara. Esse modelo já fez grandes sucessos, como o próprio Carandiru, adaptação de Hector Babenco para a obra de Dráuzio Varela. Reassistam Carandiru e analisem: o filme é cheio de flashbacks que justificam porque o preso foi preso. Naquela obra eles deixam de ser bandidos e se tornam vítimas do sistema.


No modelo dramático progressista clássico, o bandido e, antes de tudo, uma vitima do sistema. Babenco era um especialista nisso, basta ver Pixote. A reportagem sobre a trans foi no mesmo caminho e tratou ela como uma vitima do sistema.


Qual o problema desse modelo? É que ele e simplório. Fica tratando as pessoas como vitimas e/ou vilões, numa dicotomia eterna. Deu no que deu. Tentaram dizer que a trans era vítima. Agora mostram que ela é uma assassina e ela virou vilã! Uma matéria que seria para contribuir para a redução do preconceito com mulheres transexuais, acabou se revertendo e incentivando o preconceito.


A defesa progressista é partir para o ataque. Dizer que quem não concorda com ela é fascista, homofóbico e por aí vai. Ambos, direta e esquerda radicais, ficam presos ao modelo de vítima e vilão. E a briga e a divisão está feita.


Qual ensinamento podemos tirar disso? Temos que aprender a contar historias que superem o modelo dramático do melodrama social!!


Vamos continuar exemplificando com esse enredo. Temos que entender que, o que a "direita" está pedindo são apenas histórias mais complexas.


Ou seja, não basta ouvir o ponto de vista do transexual, temos que ouvir também o ponto de vista da mãe da vitima. O mesmo com policiais, público como qual já fiz alguns filmes. Não basta acusá-los, tem que ouvir seus dramas reais. Anos atrás, quando fiz o documentário "Jesus no mundo maravilha", eu fui acusado de fascista apenas por ouvir o ponto de vista dos policiais e por ter a coragem de desconstruir esse discurso melodramático dos direitos humanos. E não me arrependo. Sempre acreditei que a defesa dos direitos humanos tem que ir alem do melodrama social.


Agora está mais que evidente. Se quisermos realmente defender direitos humanos temos que conseguir perdoar o criminoso mesmo. Não adianta mais simplesmente esconder o crime que ele cometeu. Ou criar uma narrativa que prove que ele só cometeu o crime pois é vitima da sociedade. Não é tão simples mais. O modelo dramático de filmes como Carandiru e da reportagem do Dráuzio não funciona mais. Temos que conseguir ouvir a vitima do criminoso. Entrar em seu sofrimento. E ouvir de novo o lado do transexual, ouvir ele pedindo perdão.


Temos que conseguir trazer as técnicas da justiça restaurativa para a dramaturgia audiovisual e criar obras complexas que consigam realmente promover o perdão. Isso é possível. É esse o desafio! São historias assim que vão sair do modelo simplista do herói é vitima e conseguirão realmente unir o Brasil.

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